segunda-feira, 2 de março de 2009

MEDICINA E HUMANIDADE

Um belo dia se instalou em mim o que poderia identificar como sendo dificuldade em levar a bom termo, como habitualmente, o trânsito intestinal. Além disso, nenhum sintoma do tipo sangue nas fezes, muco, e mesmo indisposição física ou cansaço .

Como quase todos erradamente costumam fazer, me auto-diagnostiquei como padecendo do que se denomina síndrome do intestino irritável. Um remédio que alguém me garantiu ser ótimo para o caso (mais um erro, para não dizer outra coisa ), uma dieta à base de fibras e imaginei que tudo estaria resolvido.

Só que não resolveu, pelo contrário. A tal "dificuldade" se acentuou o que me fez finalmente decidir consultar um gastro . Após um exame clínico superficial, me foi por ele solicitada uma colonoscopia.

Bem que, ao me recuperar da anestesia aplicada para fazer o exame, percebi na médica que havia procedido o exame um ar meio preocupado e uma certa insistência em se colocar à disposição do meu gastro para conversar.

Uns três dias após realizada a colonoscopia, já com o envelope contendo o seu resultado em casa, a minha mulher recebeu um telefonema do consultório do médico que havia requisitado o exame, marcando a pedido dele uma consulta para a tarde seguinte. Aí, já muito desconfiada de que algo não ia bem, sem que eu soubesse, ela abriu o tal envelope e se deparou com a pesada sentença contida na biópsia : reto - "adeno carcinoma moderadamente diferenciado, invasivo e ulcerado". Ela tomou um natural e desagradável susto e, escondendo de mim, partilhou com os filhos a má notícia.

No dia seguinte, antes de sairmos para a consulta, resolvi tomar conhecimento do que dizia o tal exame. É uma sensação estranha essa de você "olhar bem de frente" para aquele momento do qual ninguém escapará um dia mas, no meu caso, esse dia parecia estar bem próximo. Não entrei em pânico, nem tive nenhum chilique. Tão pouco me ocorreu a tradicional indagação : por que eu ? ora, sempre estive consciente de que, assim como qualquer pessoa, estava sujeito a contrair uma doença grave.

Confesso, porém, que a conduta do gastro que me vinha atendendo foi desanimadora. Ele é aquele tipo de médico que vê a doença e o paciente com a mais absoluta frieza e impessoalidade. Recebeu a mim e a minha mulher sem ao menos se levantar da cadeira para nos cumprimentar e seguiu falando com a mesma naturalidade como comentaria "o calor que andava fazendo, ou o quanto são desagradáveis esses temporais de verão" : " Você tem um câncer no reto e os procedimentos devem ser, na ordem : extirpar o tumor, realizar uma colostomia e, em seguida, se submeter a sessões de rádio e quimioterapia". Disse também acreditar precoce qualquer prognóstico sobre uma possível cura. " Você tem um oncologista ? " indagou. Tínhamos uma indicação sim, feita à minha mulher por um médico amigo da família. Pondo termo à consulta, o gastro arrematou : " Vou fazer um encaminhamento do seu caso, marque uma consulta com o seu oncologista e ele se comunicará comigo " .

Saímos dali aturdidos e desorientados. Chegando em casa, telefonamos para o consultório do oncologista e ele só tinha horário para atendimento depois de dez dias. Deixamos marcada a consulta e resolvemos visitar o site do meu plano de saúde, na seção dos médicos oncologistas conveniados. Foi quando encontramos o nome do Dr. Claudio Petrilli e não sabemos explicar a razão ( Deus ? ) mas vendo a sua fotografia e currículo, nos passou uma sensação diferente, que nos impulsionava a procurar esse médico. Ligamos e me foi oferecido um horário de consulta para dali a dois dias.

Chegamos ao consultório e em seguida fomos encaminhados à Dra. Silmara, jovem e bonita assistente do Dr. Petrilli, que nos atendeu de forma inteiramente oposta à que nos havia sido dispensada pelo gastro. Simpática, calorosa, otimista, a Dra. Silmara me entrevistou sem nenhuma pressa e demonstrou muito interesse em levantar o meu ânimo. Requisitou todos os exames necessários ao caso e me pediu em seguida que aguardasse ali mesmo pois já iria ser atendido pelo Dr. Petrilli. Nem dez minutos se passaram e surgiu o Dr. Petrilli, um grande sorriso estampado no rosto bonachão, me abraçou como se fôssemos velhos amigos, beijou a minha mulher e nos fez acompanhá-lo à sua sala. Conversamos sobre o meu caso, ele com uma visão absolutamente encorajadora, durante uns vinte ou trinta minutos. Depois mudou o tema da conversa, alegando que "esse negócio de ficar falando só de doença era muito chato" . Falou da vida dele, da sua mulher ( também médica, oftalmologista ) e dos seus dois filhos, uma moça e um rapaz, nos contando sobre eles . Algumas piadas e brincadeiras se seguiram e nós, que ali havíamos chegado acabrunhados, já estávamos dando boas risadas.

Eu, àquele momento, me convenci plenamente de que tinha à minha frente o médico com quem me iria tratar. Foi quando ele pegou a tal carta de "encaminhamento" do gastro dizendo que ia telefonar para ele. Eu o interrompi dizendo : " Você ( a essa altura já éramos íntimos amigos ) não tem um gastro na sua equipe ? " Ele me disse que sim, que tinha um excelente gastro, o Dr. Ubiratan Mendonça Junior, profissional da sua mais absoluta confiança. Então pedi que ele marcasse uma consulta para mim. E, de imediato, o Petrilli telefonou : " Bira, estou aqui com o Jaime, meu amigo, e preciso que você o veja ". Estávamos em vésperas do Natal , o Dr. Ubiratan ia viajar dentro de dois ou três dias e, mesmo com a sua agenda tomada, não se fez de rogado : " ele pode vir amanhã, na hora do almoço ? ". Por fim, aduziu o Petrilli : " Fique absolutamente tranquilo que os profissionais e os tratamentos que lhe prescrever são todos cobertos pelo seu plano de saúde, não recaindo sobre você qualquer despesa" . E ainda há quem diga que a medicina hoje se transformou num comércio. Não para todos os médicos, posso assegurar.

Claro que no dia seguinte estava no Dr. Ubiratan Mendonça Junior que, embora fosse bem mais moço e com um temperamento mais retraído que o do Petrilli, nem por isso foi menos simpático, atencioso e solidário comigo. Procedeu a um exame clínico e, em seguida, ligou para o Petrilli na minha frente : " Olha, em vez de cirurgia, rádio e químio, estou acreditando que no caso do Jaime valeria a pena invertermos a ordem, ou seja, rádio, quimio e uma avaliação posterior para só então decidirmos sobre a cirurgia " . Nem preciso dizer da minha alegria diante dessa possibilidade, pois já me via com a tal bolsa apensada à barriga e para o resto da vida. Cumpri o tratamento da rádio e da químio, sem intercorrências que interferissem na minha rotina diária. Concluída essa fase, fiz os exames de avaliação quando o Ubiratan verificou, demonstrando um entusiasmo quase tão grande quanto o meu, que não havia mais qualquer vestígio do tumor . Daí até hoje, decorridos dois anos e meio do diagnóstico inicial, faço colonoscopias e alguns outros exames de rotina, que só têm apresentado bons resultados e me permitido o privilégio de rever esses dois médicos com quem terei sempre uma incalculável dívida de gratidão, seja por sua competência profissional, seja pela forma humana e afetuosa com que tratam os que chegam a eles necessitando de cuidados médicos e de apoio moral. Aos amigos Claudio e Bira faço justiça, a eles dedicando o meu merecido reconhecimento.